Por Mauricio Torres Assumpção, autor do livro A História do Brasil nas ruas de Paris

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Fontaine Saint Michel par Carlos Delgado

Se a place de la Sorbonne pode ser considerada o coração do Quartier Latin, a place Saint-Michel será, seguramente, a porta de entrada do bairro, que conta boa parte da história de Paris – e do Brasil também! Nela morou Heitor Villa-Lobos, com direito a placa comemorativa na porta do seu edifício. Mas antes que o compositor lá se aboletasse, a praça já contava setenta anos de história, e muitas controvérsias.

Quando o imperador Napoleão III resolveu promover, no meado do século 19, a grande reforma urbana de Paris, o prefeito Georges Haussmann apresentou-lhe a solução para o novo eixo norte-sul: o recém-inaugurado boulevard de Sébastopol seria prolongado, passando pela ilha de la Cité. Do outro lado da ilha, a via cruzaria a ponte de Saint-Michel, seguindo adiante com o nome de boulevard Sébastopol-Rive-Gauche (mais tarde rebatizado boulevard Saint-Michel).

O projeto, porém, esbarrava no que havia do outro lado do rio, na Rive Gauche: o velho e decadente Quartier Latin, assim chamado por conta do antigo hábito de se dar aulas em latim na Sorbonne. Centro intelectual de Paris, o bairro pouco mudara desde a Idade Média, concentrando não só as mais importantes faculdades e bibliotecas da cidade, mas também uma população carente, espremida em ruelas sujas, sombrias e úmidas. Somada a presença de milhares estudantes universitários, estavam reunidos todos os ingredientes para a fermentação de revoltas urbanas, quando não a eclosão de epidemias de cólera que assolavam a cidade. Logo, a desapropriação e demolição daquela parte do Quartier Latin não chegava a preocupar Napoleão III. Era mais solução do que problema.

Num período de quinze anos, 235 prédios foram derrubados, desalojando milhares de operários, despachados, sem piedade, para a periferia da cidade. No seu lugar, estendeu-se o arejado boulevard Saint-Michel, ladeado por edifícios modernos destinados às classes mais abastadas. Como dizia o escritor Émile Zola, a arrogância de Napoleão III “cortava a cidade a golpes de espada”.

O traçado do novo bulevar previa a construção de uma praça, no Quartier Latin, em contraposição exata à place du Châtelet, na margem direita do rio Sena. Haussmann delegou o projeto ao jovem arquiteto Gabriel Davioud, 32 anos, que começava a se destacar na grande reforma de Paris. Davioud abraçara com fervor o ideário urbanístico de Haussmann. Nele, não havia espaço para grandes monumentos salpicados pela cidade. O plano era ambicioso: fazer da cidade inteira um monumento por si só – o que hoje percebemos como a monumentalidade dos bulevares haussmannianos.

Davioud projetou um espaço urbano aberto, triangular, com seu vértice na ponte de Saint-Michel, e sua base encostada à parede cega de um novo edifício. Dela surgiria um chafariz ou fonte, ornamentando a praça, como a Fontana di Trevi, em Roma. Napoleão III, vaidoso, queria que a nova praça representasse no seu império o que a place Vendôme representava no império de seu tio, Napoleão Bonaparte. Isto é, que lembrasse as vitórias militares da França. Em resposta ao imperador, Davioud concebeu um arcanjo Miguel, obra em bronze de Francisque Duret, inspirado na tela renascentista “São Miguel derrota Satanás”, do pintor italiano Rafael. Nascia a fonte Saint-Michel, uma homenagem metafórica às glórias militares do Segundo Império.

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Saint Michel terrassant le dragon by francisque duret

A guerra de Davioud, por outro lado, havia apenas começado. Entre concorrentes e oposicionistas do regime, o arquiteto encontrou uma legião de críticos que não teve pudores em espinafrar o seu projeto pelos jornais. Respeitando as linhas mestras de Haussmann, Davioud projetou uma fonte que não se destacava como monumento isolado, mas, sim, em conjunto com todo o entorno da praça. Em outras palavras, o monumento não era o chafariz em si, mas todo aquele espaço urbano, harmonizado por um único gabarito e estilo arquitetônico. Para evitar que a fonte perdesse seu brilho num cenário tão homogêneo, o arquiteto ousou na combinação de ornamentos os mais variados (estátuas, quimeras, anjos, leões) com mármores de coloração forte, que ofereciam um pouco mais de destaque à obra. Apesar das justificativas de Davioud, baseadas no ecletismo do seu trabalho, seus críticos torceram o nariz. Rotularam sua obra de incoerente, vulgar, apagada, quando não colorida demais.

Julgue por você mesmo. Quando chegar a Paris, posicione-se no meio da place Saint-Michel, e observe a relação do chafariz com o conjunto arquitetônico da praça. Repare o alinhamento do gabarito, e a semelhança entre as colunas do monumento e as dos prédios ao seu redor. No alto das colunas, quatro estátuas de dois metros de altura representam as virtudes cardinas. Da esquerda para a direita, a Prudência, a Força (esta, obra de Eugène Guillaume, amigo e escultor de D. Pedro II), a Justiça e a Temperança. Na base do chafariz, duas quimeras cospem água que, somada ao volume da cascata, circula a uma velocidade de 23 litros por segundo. Lá em cima, no frontão, a Potência dá a mão à Moderação, sob o brasão de armas de Napoleão III. O brasão, contudo, desapareceu, sendo substituído pelas armas da cidade de Paris.

Com a instalação da Terceira República, depois que a França foi invadida pela Prússia em 1870, e Napoleão III se exilou na Inglaterra, os republicanos trataram de expurgar do monumento tudo que pudesse fazer referência ao Segundo Império. A fonte ganhava, então, vida nova, não obstante a ambiguidade da sua conotação – o arcanjo Miguel derrotando o Satanás, numa cidade cada vez mais pagã, e radicalmente anticlerical.

Décadas mais tarde, nova intervenção seria realizada pela prefeitura no pedestal das quimeras. Ali, na place Saint-Michel, foram erguidas, em 1944, as primeiras barricadas de Paris contra a ocupação Nazista. A homenagem àqueles heróis anônimos, gravada na pedra, tornou o monumento ainda mais heterogêneo, sem comprometer, contudo, a sua graça. São Miguel continuava lá, derrotando o capeta, testemunha do pandemônio organizado, em maio de 1968, pelos estudantes da Sorbonne.

Pré

Prédio onde morou Villas-Lobos

Hoje, você pode visitar a praça acrescentando-lhe um toque de brasilidade. Ali, atrás da fonte, no prédio número 11, Villa-Lobos morou num apartamento do terceiro andar, emprestado-lhe pelo magnata carioca Arnaldo Guinle. A placa na porta do edifício indica que o compositor viveu naquele endereço de 1923 a 1930. Na verdade, sua estada foi um pouco mais curta, dividida em dois períodos. No primeiro, de 1923 a 1924, Villa tentara apresentar suas composições nas grandes salas de concertos de Paris, com pouco resultado. Seu talento e genialidade só seriam reconhecidos na segunda estada, de 1926 a 1930, quando pôde executar sua obra nas tradicionais salas Gaveau e Pleyel, templos da música erudita na França.

Heitor Villa-Lobos viveu nesta casa

O compositor Heitor Villa-Lobos viveu nesta casa de 1923 a 1930

O sucesso era comemorado em casa, onde Villa-Lobos recebia dezenas de amigos brasileiros e estrangeiros para a feijoada de domingo na place Saint-Michel. Entre eles, os pianistas Arthur Rubinstein e Magdalena Tagliaferro, a cantora Vera Janacópulos, e o escritor Alejo Carpentier, que, ouvindo a música do brasileiro, observou: “Diante do discurso da palmeira que pensa como palmeira (Villa-Lobos), cala por um momento, como que envergonhada, a fonte da place Saint-Michel”.

O Quartier Latin, claro, não é mais aquele de Villa-Lobos, e muito menos de Napoleão III. Não perdeu, contudo, o charme que o faz uma das áreas mais nobres da cidade. No século 21, a região ainda fervilha com os estudantes da Sorbonne, que animam os cafés e calçadas, disputadas por turistas e parisienses apressados. Ainda assim, evitando as ruas mais movimentadas, você pode flanar pelo bairro, apreciando o diálogo arquitetônico entre a Paris do Antigo Regime (século 18) e a do Segundo Império (século 19). E, de repente, numa virada de esquina, você volta à Idade Média, num recanto intocado, que escapou, miraculosamente, das reformas do barão Haussmann – como a igreja de Saint-Julien-le-Pauvre e o belo Museu de Cluny, especializado em arte medieval.

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Place Saint MichelMaurício Torres Assumpção é autor do livro A História do Brasil nas Ruas de Paris, que narra a vida de grandes personagens brasileiros em Paris, de D. Pedro I a Oscar Niemeyer, passando por D. Pedro II, Santos Dumont, os positivistas, Villa-Lobos e Lúcio Costa. À venda aqui, no site Minha Viagem Paris.

 

 


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