A relação de amizade entre o imperador brasileiro Dom Pedro II e o cientista françês Louis Pasteur, a dengue, a febre amarela e a raiva.

Por Maurício Torres Assumpção, autor de A história do Brasil nas ruas de Paris,  finalista do Prêmio Jabuti 2015.

Se você está preocupado com a dengue, que continua a se alastrar pelo Brasil, quebrando recordes de mortalidade, imagine o que era viver no Rio de Janeiro do século 19, quando a febre amarela matava milhares de pessoas no verão. O assunto preocupava o imperador Pedro II, que, numa reunião da Academia de Ciências, em Paris, levou a questão ao amigo e cientista Louis Pasteur.

Dom Pedro II

O imperador brasileiro Dom Pedro II

Desde a década de 1860 Pasteur era reconhecido por sua contribuição à conservação dos alimentos através do método que eternizou o seu nome: a pasteurização. Em 1877, o químico apresentou à academia os resultados de sua pesquisa sobre a transmissibilidade de doenças através do sangue. Ao final da apresentação, fez uma homenagem ao amigo imperador, assim o apresentando: “Nosso augusto colega Dom Pedro de Alcântara que ama, como todos sabemos, dissimular o seu cetro imperial sob as palmas acadêmicas que recebe no mundo inteiro”.

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O cientista Louis Pasteur

Depois que voltou ao Brasil, D. Pedro deu início a uma longa correspondência com Pasteur que durou oito anos. Cada vez mais preocupado com as epidemias de febre amarela, o imperador convidava insistentemente o amigo a se instalar no Brasil

Pasteur, aos 62 anos, desconversava, alegando sua idade avançada. Arrastando as sequelas de um derrame, considerava-se velho demais para uma aventura nos trópicos. Insinuava, contudo, a possibilidade de visitar o Brasil, caso o imperador lhe permitisse dar continuidade aos seus experimentos: a vacina contra a raiva, que, naquele momento, era o que mais lhe interessava.

Febre amarela na imprensa carioca

Febre amarela na imprensa carioca

Pasteur já comprovara a eficácia da sua vacina antirrábica, inoculando gradualmente o vírus da hidrofobia em cães, que se tornavam imunes à doença. Mas inocular um ser humano era arriscado demais, sobretudo se levados em conta os constantes ataques que sofria por parte da desconfiada imprensa francesa. Assim, pedia ao imperador que lhe permitisse testar a vacina em condenados à morte, que nada mais esperavam da vida.

O que o francês não sabia era que a pena de morte no Brasil, sem vergonha do trocadilho, era letra morta. Isto é, a pena de morte era comutada (prisão perpétua) ou adiada indefinidamente pelo imperador. Na sua resposta, D. Pedro apresentou ainda um argumento irrefutável: a febre amarela matava muito mais gente no Rio de Janeiro do que a raiva em todo o mundo.

Pasteur, no entanto, preferiu ficar na França, dando continuidade ao desenvolvimento da vacina antirrábica para humanos que, finalmente, foi testada um ano depois da sua carta ao imperador. Joseph Meister, um menino francês de nove anos, fora mordido por um cão evidentemente raivoso. Desesperada, a mãe levou-o ao seu laboratório em Paris. Depois de muito hesitar, Pasteur, que era químico, pediu a um médico que inoculasse o menino. Meister não desenvolveu a doença. Entrou para a história da medicina como a primeira pessoa salva pela vacina antirrábica. A dor da mordida, porém, jamais seria esquecida – foi eternizada em uma estátua de Meister sendo mordido pelo cão, atualmente instalada no jardim do Instituto Pasteur.

Mordida

Escultura nos jardins do Museu Pasteur do menino Joseph Meister sendo mordido por um cão rábico

O desacordo entre D. Pedro e Louis Pasteur não diminuiria a estima entre os dois homens. Logo o cientista seria agraciado com a comenda da Imperial Ordem da Rosa, concedida pelo governo brasileiro por indicação do imperador. Não obstante o reconhecimento internacional, Pasteur enfrentava em casa a virulenta oposição dos jornais e da opinião pública, que suspeitavam de suas vacinas. Pior ainda, era politicamente conservador, fora protegido de Napoleão III, o que o tornava um dos alvos prediletos dos jornais republicanos. Contra ele criou-se a Liga Universal dos Antivacinadores, que, décadas depois, teria sua versão tupiniquim: a Liga Contra a Vacinação Obrigatória, que combatia o sanitarista Osvaldo Cruz, desencadeando a Revolta da Vacina no Rio de Janeiro.

Essa desconfiança da população e do governo francês retardou consideravelmente o lançamento do Instituto Pasteur em Paris. Inaugurado em 1888, como fundação privada, sem fins lucrativos, o instituto só pôde ser erguido graças a uma subscrição internacional. Contribuíram o barão Alphonse de Rothschild, Marguerite Boucicaut, proprietária do Le Bon Marché, o czar Alexandre III da Rússia e o imperador do Brasil, D. Pedro II, que doou generosamente 100 mil francos. Em reconhecimento, D. Pedro foi homenageado com um busto de mármore, atualmente instalado na Sala dos Atos do instituto, no número 25 da rue du Docteur-Roux, atual Musée Pasteur.

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O Instituto Pasteur em Paris

Hoje, com 125 anos de história, o Instituto Pasteur coleciona dez prêmios Nobel por sua contribuição para o desenvolvimento da medicina, incluindo o isolamento do HIV, o vírus da AIDS, na década de 1980. Quanto à dengue, que continua a assolar o Brasil, o instituto atualmente desenvolve uma vacina, já na fase de teste em animais.

Como chegar lá:

Museu Pasteur: 25 rue du Docteur-Roux. Metrô: linha 6 ou 12, estação Pasteur; ou linha 12, estação Volontaires. Aberto de segunda a sexta-feira às 14h, 15h e 16h (visitas sempre guiadas). Fechado nos feriados, e durante todo o mês de agosto. Entrada: €7,00 (€3,00 para estudantes).

Atenção: o busto de D. Pedro II está na Sala dos Atos, que não está aberta à visitação. Mas a visita ao museu vale a pena. Lá você verá a insígnia da Imperial Ordem da Rosa que Pasteur recebeu do governo brasileiro a pedido do imperador. No jardim, você encontrará a estátua do menino Joseph Meister, eternamente mordido pelo cão rábico.

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