Por Lucas Figueiredo

Ele é um jovem senhor, a caminho dos 50 anos, atleta num passado longínquo e, no presente, um sedentário dedicado e atuante. Vai tentar esquiar pela primeira vez. Contrata um instrutor, que já na aula inaugural dispara instruções das mais variadas, desde a posição correta dos pés, dos joelhos, do dorso e dos braços até o gingado da cintura. Do ponto de vista teórico, todas as orientações soam absolutamente lógicas. Do ponto de vista prático, serão inexequíveis. “Quem comanda tudo é o ventre, que precisa estar sempre à frente”, explica o instrutor ao aturdido aluno, que ainda luta com a posição dos pés e parece longe de poder pensar em joelhos, dorso, braços e cintura, que dirá no ventre!

Lucas e seu instrutor de esqui

Lucas e seu instrutor de esqui

O instrutor quer que o aluno deslize macio sobre a neve fofa, mas ele está agarrado ao solo como uma árvore centenária. As botas, com quatro travas de metal, são muito pesadas. Os esquis parecem feitos sob medida para impedir qualquer tipo de deslocamento humano convencional (andar, pular, engatinhar, arrastar-se…). Os bastões devem estar muito curtos ou muito longos, porque não funcionam.

Ele finalmente se desgruda do chão. E ato contínuo cai. De novo. E de novo, por mais que se esforce com um contorcionismo algo humilhante, não consegue se levantar. O instrutor termina com a agonia e iça o veterano aluno como um guindaste. De pé, novamente. Mas até quando? A lei da gravidade, todos ali já sabem, acabará por se impor.

Sim, aquele homem sou eu, no inverno europeu de 2014/2015 e no começo deste inverno de 2015/2016. Não desisti. Devo admitir porém: menos pela minha força de vontade e mais pelo incentivo da família e do instrutor. Quis parar, anunciei que ia parar, cheguei a reconhecer que aquilo não era para mim, pelo menos não nesta fase da vida. Quantas vezes pensei: “Por que eu não posso simplesmente ficar sentado numa cadeira, lendo um livro ou fazendo selfies com os Alpes ao fundo enquanto crianças, jovens, senhoras e senhores maduros como eu e até idosos se divertem ao meu redor, zunindo montanha abaixo às risadas?”. Por que?

A verdade é que, por mais que desculpasse minha falta de jeito para o esqui, eu desejava com muita força estar entre aquela gente feliz que podia deslizar na neve, o que incluía meus filhos, de 13, 10 e 4 anos. Então, mesmo diante do repetitivo fracasso diário, com um fiapo de esperança, prometi que nestas férias de fim de ano seguiria tentando esquiar t-o-d-o-s os dias. Depois, caso não houvesse evolução, veríamos…

Na manhã do dia 31 de dezembro, um novo instrutor me deu as instruções de sempre, mas desta vez, por motivos que até agora não sei explicar, meu corpo respondeu. Em vez de descer desembestado a montanha, em linha reta, até me estatelar no primeiro monte de neve, eu pude finalmente fazer um ziguezague. Um ziguezague tímido, é verdade, mas desci a montanha de pé.

No dia seguinte, 1º de janeiro, acordei às 7h40, encarei o vento forte que soprava e a neve que caía espessa e fui para a pista. Progredi. Acredito que tenha acertado pelo menos 50% a posição dos pés, dos joelhos, dos braços, do dorso e até ensaiei um gingado com a cintura.

Com muita perseverança e tombos, Lucas dominou o esqui.

Com muita perseverança e tombos, Lucas dominou o esqui.

Não estou aqui para me gabar, mas no dia 2 minha performance foi digna de nota. Ziguezagues bastante rápidos e eficientes, controle da situação na maior parte do tempo e de vez em quanto um uhuuuuuuu em voz alta. Quando me estatelava na neve (poucas vezes, registre-se), dava risada. Estou me divertindo – ainda na pista azul (iniciante), mas já mirando a pista vermelha (intermediária) e sonhando com a preta (avançado). Tenho certeza de que meu esqui tem futuro.

Para mim, esta virada de ano foi importante. Sinto-me como um Neil Armstrong às avessas: um pequeno passo para a humanidade, um gigantesco salto para um homem. Ultrapassar um limite o qual eu julgava intransponível me devolveu a esperança de que outros limites poderão ser vencidos (e eu tenho uma lista grande…). Descobri que ainda posso aprender. Agora, com espírito juvenil, estou louco pelo próximo dia na montanha.

Ah, sim! Se você um dia resolver esquiar (ou tentar de novo), dou uma dica. Grave-a, mesmo que por ora não faça sentido: quem comanda tudo é o ventre, que precisa estar sempre à frente. Um dia você vai entender.

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