Desenho de Sempé na rue des Sèvres

Desenho de Sempé na rue des Sèvres

Passando pelo número 14 da rua Sèvres em Saint Germain, vi este desenho do grande humorista francês Sempé. Tirei as fotos e desde então me divirto discutindo as possibilidades de interpretação.

A localização: o desenho se encontra em um dos bairros mais elitistas de Paris, na frente do novo endereço da Hermés.

Sempé

Sempé

O desenho: trata-se de um grupo de homens de negócios, todos eles de uma certa idade, terno e gravata, em harmonia com o bairro. Exibindo a mesma expressão sorridente, eles se despedem após uma reunião de trabalho:

Sempé

Sempé

Como vai a Louise? Muito obrigado, e a Odette? Diga bom dia à Suzanne! Minhas homenagens à Claire. Como vai Catherine? Dê um beijo na Solange por mim. Espero ver Maud um dia destes. Como vai Christinne? Minha melhor lembrança à Joelle. Bom dia à Elizabeth. Como vai Monique? Muito bem, obrigado. E Laure?

Um retrato da sociedade parisiense, claro, esta é a especialidade do artista, hoje com 81 anos.

As interpretações se dividem em duas tendências. A primeira, Sempé descreve a politesse parisiense, superficial, feita de frases feitas e sem real interesse. Ele descreve a vacuidade das relações sociais.

Estes homens se despedem com um sorriso de conveniência e indagam distraídos sobre as respectivas famílias. Trata-se de um grupo seleto, se frequentam e possuem uma certa intimidade pois utilizam o nome das esposas. Mas é uma amizade vazia, repetem todos as mesmas frases, apressados, até mais e basta.

A segunda tendência é mais divertida: na hora da despedida, após reunião de trabalho, sorridentes, eles possuem uma só preocupação, saber notícias ou enviar notícias para a esposa do outro. Este desenho seria o retrato de uma sociedade de sedutores e sedutoras, herdeiros da galanterie e das regras de sedução dos séculos passados. Eles vivem em grupo fechado, se frequentam e a aventura da infidelidade não ultrapassa o limite do grupo.  Contentes e infiéis entre si, sem grandes riscos. Trata-se de “ligações não perigosas”, uma bricadeira com o título do famoso livro do escritor francês Laclos, Liaisons Dangereuses,  transformado em filme por Roger Vadim em 1959, por Stephen Frears em 1988 e por Milos Forman em 1989.

E então? Qual a sua versão?