Vestido de noiva

Vestido de noiva

Por Rita, fotógrafa do Conexão Paris

Paris é muito mais do que a cidade da Torre Eiffel, do Museu do Louvre ou dos melhores croissants do mundo. Pessoalmente, aquilo que verdadeiramente me atraiu foi a diversidade cultural, oferecida por mais de um século de imigração oriunda num primeiro momento, de vários países europeus, asiáticos e africanos e finalmente, do mundo inteiro.

O que demonstra bem esta realidade é a constante pergunta Tu est de quelle origine? (Qual é a sua origem?) no momento de conhecer alguém. Mesmo um “verdadeiro” francês terá certamente uma origem estrangeira e isso está estampado nos rostos que nós cruzamos no dia a dia. É maravilhoso! É maravilhoso sentir-se parte de uma sociedade onde co-habitam várias culturas que geração após geração acabam por se misturar, dando origem à verdadeira globalização da humanidade.

De há uns anos para cá, sinto um inexplicável fascínio pela África e a minha vinda para Paris, há quatro anos atrás, foi o melhor compromisso que encontrei. Viver em solo europeu, com todas as minhas referências, bem pertinho de uma densa comunidade africana bem instalada e integrada na cidade luz!

Por sinal, Paris é mesmo a cidade do amor. Três meses depois da minha chegada conheci aquele que é hoje o meu marido, oriundo do Senegal. E é justamente a pretexto do meu casamento que surgiu a ideia deste artigo.

Foi uma cerimonia bem simples, só com os amigos mais íntimos e uma produção muito caseira. Mas casamento é casamento! O vestido da noiva tinha que ser muito especial. Eu desejava que o meu vestido fosse o símbolo dessa fusão de culturas.

Fui para o 18éme distrito, metro Château Rouge, e mergulhei no universo africano. Tinha uma ideia bem fixa do que queria. Um dos mais nobres tecidos africanos: o bazin. Encontrei-o numa loja muito simpática e aí mesmo me recomendaram um costureiro que trabalhava numa lojinha logo ao virar da esquina. Em apenas uma hora ficou tudo decidido! A empatia com o costureiro foi imediata. Expliquei para ele a minha ideia. Um vestido com um tecido africano e um corte europeu. Desenhamos um croqui bem simplificado. O nosso entendimento foi de tal ordem que eu dei a ele liberdade total para se exprimir nos detalhes e acabamentos. Marcamos encontro para dali a cinco dias.

O tempo demorou a passar. A minha ânsia e medo da desilusão eram grandes! Eu dei um tiro no escuro baseado só na intuição! Mas o dia chegou e eu lá fui. No meio do caos daquele lugar minúsculo com três costureiros e as clientes à porta sem espaço para entrar, lá fui apresentada ao meu vestido de noiva. Não dá para descrever o sentimento. O meu costureiro senegalês do 18 éme ousou na criação. Aplicou um bordado maravilhoso na frente, bem africano e delicado. Restava-me experimentar essa peça única, cheia de carácter. Foi quando caiu a primeira lágrima de emoção, de muitas outras desse meu casamento cheio de significado!

Rita é de Lisboa, fotógrafa e mora em Paris. Rita é também a fotógrafa dos leitores do Conexão Paris. Durante nosso último encontro, surgiu a idéia deste lindo artigo assinado por ela. Clique aqui para conhecer sua proposta.