Sociologia do Seio Nu

Sociologia dos Seios Nus

A exibição da nudez, não é novidade. A história está cheia  de nus masculinos e femininos.

Mas, em cada época e em cada sociedade, a nudez é particular: as partes íntimas mostradas e a maneira de “ver” mudam constantemente.

No ocidente, as mulheres começaram a mostrar os seios com conotação erótica nos meados do século 15. Vastos decotes para compensarem as pernas escondidas por longas saias e caudas.

Temos que esperar o início do século 20 para que a mulher se libere de roupas longas, pesadas, corpos amarrados e presos dentro de corsets. Somente aí que cinco séculos de discursos médicos e moralistas sobre as vantagens do corpo espremido tiveram fim.

Coco Chanel foi uma das primeiras mulheres no comando desta revolução: saias mais curtas, roupas soltas e confortáveis para mulher independente e responsável.

A mulher livre e leve passou a praticar esportes, a dançar e viver com conforto.

Foi em 1960 que a moda dos seios nus apareceu com força em Saint Tropez. A moda pegou rapidamente na Côte d’Azur, mas a propagação foi lenta. Na Bretanha, os primeiros seios nus apareceram no final do anos 1970.

Neste início do século 21 assistimos à uma regressão deste comportamento. Lá onde víamos todas com seios de fora, encontramos agora o biquine tradicional ou o maiô peça única. Esta tendência recente é o resultado do amplo conhecimento sobre os cuidados contra o cancer da pele. A ordem agora é no sentido da proteção. Mas ela também é resultado de uma nova visão da elite sobre a questão.

Enquanto o seio nu foi relacionado com liberação e afirmação, a elite comandou este movimento. Anos atrás, seios nus estavam dentro de um movimento de liberalização do corpo da mulher e de afirmação da identidade feminina. Quase 50 anos se passaram desde as primeiras corajosas de Saint Tropez.

Hoje, são as mulheres de classes mais populares e rurais que investem em massa o terreno e, como sempre, a elite se retira.

Após todos estes anos, seios nus na praia é totalmente natural para a mulher francesa? Nada disto. Quando desembarcamos nas praias e vemos todas estas jovens e menos jovens com seus seios liberados, não temos idéia nas regras e códigos sociais que enquadram a situação. Estas regras não são restrições legais, mas acordos tácitos que foram se desenvolvendo ao longo dos anos. Na teoria, todas as mulheres podem mostrar seus seios na praia. Mas a realidade é outra, a sociedade aceita esta liberdade dentro de limites precisos:

. a mulher que mostra seus seios deve ser jovem e os seios bonitos.

. existe uma idade certa para mostrar os seios. A menina, tudo bem, a adolescente nem pensar, as 25/45 anos se sentem seguras para tanto e as de mais de 45 anos, por favor, cubram-se.

. a mulher deve escolher um lugar propício na praia, longe de grupos de homens e um pouco afastado de famílias com crianças.

. a mulher retira a parte de cima do biquini quando estiver deitada na toalha. Se for entrar na água, brincar com crianças, conversar com alguém, ela se cobre de novo.

. o pior que pode acontecer, é um encontro com vizinhos, colegas do trabalho, amigos do marido. Neste caso, todas ficam  constrangidas e se cobrem rapidamente.

Na praia, se ficarmos atentos, veremos que as regras são respeitadas. E, as poucas que andam seios nus, são vistas como exibicionistas.

E os homens, como reagem? Eles já devem estar acostumados, não? Nada disto. O homem francês se educou, não parou de olhar, aprendeu a olhar de maneira discreta. Seu olhar volta a ser franco e aberto se a mulher pertencer à categoria “andar seios nus”.

O texto acima foi escrito à partir da leitura do livro do sociólogo Jean-Claude Kaufmann, Corps de femmes, regards d’hommes. Sociologie des seins nus. Éditions Nathan.