Evandro Barreto

Original na gaveta é papel manchado. O que lhe dá sentido são os sentidos do leitor, inevitavelmente co-autor.

O mais brilhante comentário que me lembro de ter lido sobre uma obra literária é o prefácio de Taine para “O vermelho e o negro”. E, no entanto, passa longe da cumplicidade estabelecida por Stendhal com quem o lê. Quando Julien Sorel ousa empolgar a mão de Mme. de Renal , o coração que bate mais forte é o de quem completa, no compartimento da alma aberto ao texto, o não-dito sobre o calor e a textura da pele, os pelos do braço que se erguem em rendição, o arfar mal-contido, o triunfo de Pascal sobre Descartes.

Não cabe ao receptor da arte o dever da expressão, mas o dom de preencher o silêncio entre as notas, de aduzir o gesto não coreografado, de adivinhar no céu comportado do seu cotidiano as estrelas enlouquecidas que só brilharam fugazes no céu de Saint-Rémy.

Autores são o que fazemos deles, com nossa inteligência e nossa sensibilidade, nossas referências mal-cicatrizadas e nossos vazios famintos de plenitude.

Às leitoras e leitores do blog, meu contentamento pelo encontro, minha realização de autor pela cumplicidade.