Por Daniel Pescio, perfumista que criou uma proposta exclusiva para os leitores do Conexão Paris. Trata-se de uma consultoria para ajudar você a descobrir o seu perfume ideal.

A perfumaria masculina propriamente dita, surgiu em 1965 com Brut de Fabergé. Alguns anos depois, essa perfumaria conheceria uma pequena revolução com o surgimento de uma nova molécula, inicialmente utilizada em produtos de limpeza, chamada dihidromyrcenol. Apreciada por dar estabilidade e frescor extremo às composições aromáticas, essa molécula vai aos poucos substituir a essência de lavanda, acentuar o frescor cítrico e se tornar peça-chave nos perfumes masculinos. Primeiro em Azzaro Pour Homme, em seguida em alta dosagem de 10% em Drakkar Noir, e por fim uma overdose de 20% em Cool Water de Davidoff. Esse último, criado por um dos maiores perfumistas de todos os tempos, Pierre Bourdon, vai se tornar um dos perfumes mais copiados da história da perfumaria masculina. O dihidromyrcenol seria o anabolizante dos perfumes masculinos. Mas há quem trabalhe sem esse ingrediente, e com muita maestria.Machões, modelos musculosos, andróginos, dandies e campeões, o arquétipo da beleza masculina evolui com a estética do seu tempo. Nos dias de hoje temos muita testosterona e pouca originalidade. É assim a perfumaria masculina das últimas décadas. Há um culpado nessa história? Os perfumes masculinos teriam uma trama comum em cada fragrância? Ou seria um conservadorismo masculino ditando as regras e o gosto do homem contemporâneo?

Aspectos históricos mostram que por mais de dois séculos, os homens vêm cultivando os mesmos hábitos em matéria de higiene, e o perfume é uma prolongação desse ritual. O homem tem a herança do gesto de fricção no momento de passar a água de Colônia, seja para se perfumar ou na hora de colocar um pós-barba. Essa gestualidade está imprimida no inconsciente coletivo dos ocidentais.

1) Invictus – Paco Rabanne 2013
Paco Rabanne, marcou o universo da moda nos anos 60 com sua primeira coleção, verdadeiro manifesto dadaísta, com vestidos em materiais metálicos. O estilo proposto por ele rompe com a estética vestimentária da época e se torna expressão artística próxima das artes plásticas.
No universo dos perfumes, sua personalidade provocadora e ousada inspirou suas fragrâncias desde 1969, mas foi à partir de 2008 com o grande sucesso de One Million que Paco Rabanne volta com força total desbancando grandes clássicos como Eau Sauvage da Dior. Com os ingredientes que fizeram a notoriedade dos antecessores, Ivictus conta com modelo sexy, semi-nu, corpo escultural, arquétipo do poder, da sedução, da ousadia e da juventude. Explorando alguns códigos da mitologia, o filme publicitário é estrelado por um dos deuses do rugby australiano, Nick Youngquest, parecendo sair de Magic Mike XXL! E se você quiser ter um corpo como o dele, é possível entrando no site www.pacorabanne.com. Você terá acesso ao programa de treinamento Invictus Body. Invictus explora o mundo do esporte pelo lado da fantasia do desejo de ser campeão. Quem um dia nunca sonhou em entrar num estádio ou arena, ouvindo uma multidão de pessoas gritando seu nome e ser objeto de desejo de todos? Esse é o papel desse novo perfume, de uma nova era perfumística.
Família olfativa: Amadeirado Aquático tendência neo-marinho diferente dos perfumes desse tipo dos anos 90, com uma nota salgada, metálica em contraste com notas um pouco doces. Melão, grapefruit, louro, madeira de guaiaco e notas oceânicas tipo tsunami.
Lado bom: Provar um sucesso de marketing na pele, não é todo dia que isso é possível. E mais, não vai passar despercebido, pois esse é o perfume do poder.
Lado ruim: O frasco em forma de um troféu, parece mais um produto de contrabando. As notas metálicas são mais que estranhas. Como dizemos aqui, “bois qui pique”, ou seja, “madeira picante” para defnir Ambre Extrême, presente nesse perfume.
Motivos para provar na pele: Se sentir um campeão! Mas cuidado, isso pode ser uma ilusão!
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Invictus de Paco Rabanne

2) Bleu de Chanel – Chanel 2010
Nos dias de hoje, o lançamento de um perfume implica anos de planejamento e sobretudo muito dinheiro. Sem contar que num mundo totalmente globalizado, o perfume tem que agradar a gregos e troianos. No caso do Bleu de Chanel, os ingredientes da fórmula de sucesso foram: Gaspar Ulliel, um lindo ator francês conhecido em Hollywood; Martin Scorcese; fragrância de fácil compreensão; ingredientes de qualidade Chanel.
Família olfativa: Fougère com notas de limão, grapefruit, menta, lavanda, sândalo australiano, vetiver
Lado bom: Qualidade das matérias primas Chanel.
Lado ruim: Nada de inovador no perfume, mas não chega à ser uma lástima. Quase.
Motivos para provar na pele: Acho que eu diria para você provar Allure Homme Sport, Allure Edition Blanche, Chanel Pour Monsieur e Egoïste.
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Bleu de Chanel

3) Terre d’Hermès – Hermès 2006

Elegante, minimalista, sóbrio e refinado, o estilo de Jean-Claude Ellena, perfumista exclusivo da Hermès, é inconfundível. Seus perfumes, nem sempre com gênero definido, são referências e inspiram o mundo da parfumaria. Monsieur Ellena é talvez o único perfumista da atualidade à não recorrer ao uso de dihidromyrcenol em seus perfumes. Uma escolha nobre além de provar a capacidade de um perfumista – considerado um dos melhores da atualidade – em não ceder à facilidade. Jean-Claude Ellena é muito simpático e generoso, sempre em busca por novas notas verdes e refrescantes.

Para a criação de Terre d’Hermès, todos os ingredientes estão em harmonia com a elegância da marca e a maestria do perfumista. O perfume nos fala dos contrastes de cores e texturas entre terra, água e ar, e nos transmite um sentimento de conexão com a natureza. O perfume é usado por homens e mulheres no mundo todo. Terre d’Hermès tem uma base amadeirada e mineral.

Conheça alguns perfumes famosos já criados por Ellena: Déclaration Cartier, Eau Parfumée au Thé Vert Bulgari, First de Van Cleef, Eau de Campagne de Sisley, Cologne Bigarade Frédéric Malle, Bois Farine L’Artisan Parfumeur…
Família olfativa: Amadeirado cítrico com notas de grapefruit, laranja, notas minerais, shiso (notas verdes e mentoladas), sílex, vetiver, benzoino, musgo de carvalho.
Lado bom: Sinal de bom gosto, elegância e refinamento.
Lado ruim: Nenhum.
Motivos para provar na pele: Qualidade dos ingredientes, boa fixação, elegância. Aconselho o clássico Eau de Toilette, e sobretudo a deliciosa versão Eau Très Fraîche, com laranjas amargas do mediterrâneo.
Terre d’Hermès

Terre d’Hermès

4) One Million – Paco Rabanne 2008

Esse é o campeão de olimpíadas passadas. Já foi o perfume N°1 por vários anos, e veio para relançar o gênero oriental para homens, só que desta vez, um oriental masculino adocicado. Com a imagem do playboy macho milionário, o golden boy das baladas!
A marca Paco Rabanne pertence à uma corporação espanhola, a PUIG, que detém hoje várias marcas famosas como Nina Ricci, Valentino, Jean-Paul Gautier… Em todos os projetos desenvolvidos por eles a imagem do produto é baseada sobre arquétipos bem precisos. No caso do One Million, é o jovem magnata que tem poder num estalar de dedos. É o poder imediato, ele tem tudo aos seus pés: mulheres, dinheiro, ouro, fama e poder, e tudo com muita ostentação e nenhuma discrição.
Família olfativa: Oriental com notas cítricas, menta, rosa, especiarias, patchuli, cedro, âmbar, fava de tonka, tabaco e couro.
Lado bom: Sensualidade afirmada, estilo ostentação.
Lado ruim: Oriental com ares de “déjà vu”!
Motivos para provar na pele: Testar um perfume masculino oriental adocicado.
One Million de Paco Rabanne

One Million de Paco Rabanne

5) Boss Bottled – Hugo Boss 1998

Maçã do amor, maçã do paraíso, maçã de Adão, com ou sem Eva. Quem disse que na perfumaria masculina não existe perfumes frutados? Boss Bottled abre com uma explosão de frutas deliciosas e bem equilibradas com maçã e limão, agrumentada com um toque de rosa e ameixa. Na evolução, o lado floral e especiado com notas de gerânio, canela, cravo e madeira de Mahogany, vem introduzir as facetas quentes, sedutoras, e envolventes. Com a chegada das notas de fundo, o perfume ganha uma dimensão ambarada, abaunilhada, bem amadeirada que se aquece levemente na pele. Perfume agradável, sem correr muitos riscos, traduzindo os fundamentos da marca com sucesso e elegância.

Família olfativa: Amadeirado-especiado com notas de frutas cítricas, maçã, ameixa, gerânio, cravo, canela, vetiver, baunilha, cedro, sândalo.

Lado bom: Raramente você vai encontrar uma fragrância frutada nesse estilo.

Lado ruim: Perfume consensual.
Motivos para provar na pele: Única fragrância da marca Hugo Boss digna de ser provada na pele!
Boss Bottled de Hugo Boss

Boss Bottled de Hugo Boss

6) Le Mâle – Jean Paul Gaultier 1995

Criado por Francis Kurkdjian, jovem perfumista de 24 anos na época, recém saído da escola de perfumaria de Versailles, ISIPCA. Le Mâle foi o primeiro perfume da marca Jean-Paul Gaultier, mas não o único em parceria com Francis K. Jean-Paul Gaultier queria um primeiro perfume masculino com cheiro de barbearia mas que deveria ser atualizado ao gosto dos anos 90 com um toque de modernidade e audácia. Foi suficiente utilizar a velha referência do cheiro da “espuma de barbear” que é Brut de Fabergé, acrescentar menta e anis e envelopar tudo em muito musgo.

Do design do frasco ao filme publicitário, Le Mâle (O Macho) fazia alusão ao universo gay. Virilidade, músculos e beleza, ingredientes do estilo de Jean-Paul Gautier também mostrado nas passarelas, fez desse perfume o mais vendido na França durante muitos anos. A fragrância foi além dos esteriótipos, e é até hoje usado por diferentes tipos de homem, do executivo ao skatista, do adolescente em busca de virilidade ao político ávido por poder e dinheiro (público de preferência!).

Família olfativa: Fougère-Oriental com notas cítricas, menta, anis, artemísia, lavanda, flor de laranjeira, especiarias, baunilha, cedro, sândalo e fava de tonka.
Lado bom: Perfume retrô, com toque de modernidade e audácia.
Lado ruim: Muitos homens usam.
Motivos para provar na pele: Se não quiser passar despercebido com um toque retrô-moderno-retrô.
Le Mâle de Jean Paul Gaultier

Le Mâle de Jean Paul Gaultier

7) Eau Sauvage – Dior 1966

Perfume revolucionário na década de 60, e N°1 de vendas por 40 anos, Eau Sauvage foi o primeiro perfume masculino da Dior, e ficou famoso pelo uso generoso de uma nova molécula em sua fórmula, o hedione.
Seu criador, Edmond Roudnitska, o maior perfumista do século XX, se apoiava na noção do belo definida por Emmanuel Kant, sendo esse seu alicerce na concepção de suas fragrâncias e do conceito de obra de arte.
Eau Sauvage é uma falsa colônia, pois a fixação do perfume é duradoura. As notas cítricas complexas, refrescantes e persistentes, com notas aromáticas em contraste com notas amadeiradas, fixam o perfume na pele por muito mais tempo.
Dotado de um estilo criativo, moderno, e de muita precisão e equilíbrio nas composições, Edmond Roudnitska criou vários perfumes de sucesso para a maison Christian Dior, entre 1948 e 1976. Os perfumes nessa época eram complexos e ricos em matérias primas de qualidade, pois a distribuição não era em escala interplanetária como é hoje.
A partir de 2009, a Dior decide usar imagens do grande mito masculino do cinema francês, Alain Delon. As imagens tiradas de filmes como La Piscine ou Les Aventuriers, mostra o ator no auge da fama, sedutor, sexy, magnífico, selvagem, em cenas à beira de uma piscina ou velejando em alto mar. A beleza de Delon é atemporal, como o perfume.
Família olfativa: Cítrico-aromático com fundo chipre. Notas de bergamota, limão, manjericão, lavanda, cravo, coentro, iris, patchuli, vetiver, musgo de carvalho.
Lado bom: Frescor intenso e boa fixação com elegância e refinamento.
Lado ruim: O perfume sofreu algumas alterações desde sua criação mas continua sendo um clássico da perfumaria, tanto para homens como para mulheres.
Motivos para provar na pele: Todos. Se você gosta de perfumes ultra-refrescantes, esse é um clássico a ser provado.
Eau Sauvage de Dior

Eau Sauvage de Dior

8) La Nuit de l’Homme – Yves Saint Laurent 2009

Temos aqui o exemplo do infinitamente clichê! Um perfume insignificante mas que não passou despercebido. A campanha publicitária conta com a presença do ator francês, também conhecido em Hollywood, meu vizinho, o simpático Vincent Cassel. A L’Oréal, que comprou a Yves Saint Laurent Parfums, mais uma vez traça um infalível plano de marketing. Aliás, a referência dos jovens chegando nas lojas para comprar o perfume é sempre o ator: “Bonjour Madame, je voudrais le parfum de Vicent Cassel, s’il vous plaît”.
A versão original é muito mais interessante. Criado por Dominique Ropion, a fragrância faz parte de pesquisas desenvolvidas pelo perfumista sobre a essência de gerânio e suas facetas.
Família olfativa: Aromático amadeirado com notas de cardamomo, bergamota, lavanda, notas florais, cedro, coumarina (nota atalcada), vetiver.
Lado bom: Vincent Cassel
Lado ruim: Parecido com os outros mas sem na verdade saber com qual!
Motivos para provar na pele: Nenhum.

9) Acqua di Gio – Giorgio Armani 1996

A paradisíaca ilha de Pantelleria, na Sicíla, na qual o elegante Giogio Armani passa suas férias, foi a inspiração para esse perfume. A força da água marinha, a volúpia do ar e o sol, são elementos presentes nessa fragrância. Orquestrado por um dos perfumistas mais elegantes e refinados da profissão, o espanhol Alberto Morillas, o perfume dialoga com o homem moderno em busca de autenticidade e que está em harmonia com os elementos naturais. Quase um unissex, com notas cítricas, frescor aromático, ultra refrescante com notas marinhas, musgo de carvalho e madeiras conferem um lado elegante, cristalino e sóbrio. Sucesso também junto ao público feminino, Acqua di Gio é sem dúvida um dos perfumes mais copiados, pelo lado inovador, pela sensação de frescor extremo, simples e único.
Família olfativa: Aromático-aquático com notas refrescantes de limão, bergamota, tangerina, frésia, coentro, notas marinhas, cedro, patchuli, musgo de carvalho
Lado bom: Muito refrescante, fácil de usar, como uma colônia. Perfume discreto, com ar de quem acabou de sair do banho.
Lado ruim: Um pouco simples demais? Talvez não.
Motivos para provar na pele: Viagem para Ilha de Pantelleria, sensação de liberdade, frescor extremo, natureza.
Acqua di Gio de Armani

Acqua di Gio de Giorgio Armani

10) Habit Rouge – Guerlain 1965

Jean-Paul Guerlain, perfumista da casa nessa época, era apaixonado por equitação e tirou desse universo todas as referências para homenagear os cavaleiros. Perfume elegante e refinado, com notas contrastadas refrescantes, aromáticas, com notas de baunilha, âmbar e couro. Icônico da perfumaria oriental masculina, Habit Rouge é para o homem o mesmo que Shalimar é para as mulheres. Mas poderia também ser o inverso! Ambos perfumes sofisticados, sedutores e envolventes. A inovação e ousadia dessa fragrância está na quantidade massiva de baunilha, deixando o perfume com características de um semi-gourmand. Sempre com o acorde típico da Guerlain, a Guerlinade, composto de bergamota, rosa, jasmim, iris, baunilha e fava de tonka, inicialmente usado no revolucionário Jicky.
Família olfativa: Oriental com notas de frutas cítricas, pau rosa, ervas aromáticas, levemente floral, iris, especiado cravo-canela, patchuli, benzoino, baunilha, opoponax, fava de tonka e couro.
Lado bom: Sofisticação da composição e qualidade das matérias primas.
Lado ruim: Se você não gostar de perfumes orientais.
Motivos para provar na pele: Pela qualidade dos ingredientes, sofisticação e sobretudo, se você nunca provou um oriental na pele. Os elogios não serão poucos!
Habit Rouge de Guerlain

Habit Rouge de Guerlain

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Clique aqui para conhecer a proposta de DanielTrata-se de uma consultoria para ajudar você a descobrir o seuperfume ideal. Após traçar seu perfil olfativo, Daniel te indica o roteiro das perfumarias e os perfumes a serem testados.