Por Evandro Barreto, autor do livro Na Mesa Cabe o Mundo, lançado pela Editora Conexão Paris.

Eu olhava a bateia e só via cascalho. Na terceira sacudida, o velho parou, deu um sorriso desdentado. Eu continuava vendo pedregulhos, mas ele se debruçou sobre a peneira com os dedos em pinça e retirou algo minúsculo e enlameado. Limpou na calça e o sol fez brilhar uma pepita de ouro do tamanho da esperança. Guardou no bolso e voltou à lida.

Pois é: até num igarapé perdido nos confins da Amazônia, a gente aprende coisas para usar a vida inteira  –  seja no interior profundo do Brasil (onde deparei numa vendinha com a inesquecível cachaça “Respeita a Mulher do Sargento”), seja em Nova Iorque ou Paris. Sempre que me pego caminhando distraído, vou correndo buscar o olhar de garimpeiro. Foi assim que resgatei abotoaduras de prata em estilo art nouveau no Mercado das Pulgas, gravuras japonesas num bouquiniste à beira do Sena, a primeira edição em francês de “Nada de Novo na Frente Ocidental”  não me lembro onde.

Essa reflexão me ocorreu enquanto acompanhava aqui no blog os instigantes comentários sobre a compra de vinhos em supermercados. Há quem ache conveniente, há quem prefira as lojas menores, que possibilitam estocagem mais cuidadosa e a troca de ideias com o dono. Pessoalmente, decido segundo as circunstâncias; se procuro um rótulo determinado, pesquiso em fontes confiáveis ou percorro endereços promissores para vinhos de griffe, dentre as muitas opções que Paris oferece  –  de caves para iniciados a templos como o Fauchon ou o Hediard. Mas quando me baixa o espírito do garimpo, mantenho os olhos bem abertos e caminho  sem destino certo.

Onde comprar vinhos: em caves especializadas ou supermercados?

Onde comprar vinhos em Paris: em caves especializadas ou supermercados?

Posso entrar no Lucien Legrand, Filles et Fills, na Galerie Vivienne, de onde nunca saí frustrado, assim como estabelecer animadas conferências com um dado Monsieur Dupont, orgulhoso proprietário de uma adega especializada em brancos do vale do Loire. E por que não uma exploração sem pressa alguma no Monoprix ou no Carrefour? O que se perde em calor humano pode-se ganhar nos riscos e alegrias do livre arbítrio. De repente, numa gôndola lá do fundo, aquele tinto da Nova Zelândia pisca o olho para você. Será? Você tenta decodificar os dizeres do rótulo. Nada feito, você nunca ouviu falar na região ou na propriedade. E daí? Quando ou onde você terá outra oportunidade igual?  Caso o preço não seja desanimador, acredite no seu instinto. Se ele disser para não virar as costas, mergulhe na aventura. O pouco a perder é pouco mesmo, diante do que você pode descobrir (e, na volta, contar para a turma).

Saúde!


Na Mesa Cabe o Mundo

Conheça o livro Na Mesa Cabe o Mundo, escrito por Evandro Barreto.

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