A doggy bag, aquela quentinha/marmitinha que levamos pra casa com o que sobrou da nossa refeição em um restaurante, é prática comum em vários países. Mas a doggy bag será aceita ou não pelos franceses?

A Assembleia Nacional francesa adotou recentemente uma proposta de lei que tornará obrigatória a doggy bag nos restaurantes. A questão provoca comentários diversos. Jocosos, raivosos, desesperados, positivos, negativos.

Os comentários

Os jocosos mostram a incompatibilidade entre a cultura francesa e a doggy bag. Eles sugerem que a doggy bag vire gourmet bag. Talvez assim os parisienses aceitem. Se existem freios psicológicos para a aceitação do “saco para o cachorro” talvez o “saco gourmet” possa desarmá-los. Último conselho, a eliminação categórica da feia terminologia oficial escolhida pelos deputados: rest-o-pack.

Os positivos usam argumentos politicamente corretos. Elas são anti-desperdício e participam ativamente na luta contra o efeito estufa. Para eles a doggy bag é uma tendência. Talvez os mais velhos não aceitem, mas a jovem geração francesa embarca nessa.

Os negativos, desesperados e raivosos trabalham no setor dos restaurantes. Todos estão prostrados diante de mais uma lei, mais uma obrigação. Mais uma despesa considerada absurda. Terão que comprar embalagens e contratar empregados para o preparo da gourmet bag.

A doggy bag é um hábito anglo-saxão e asiático (e também brasileiro) e nunca vimos ninguém, na França pedi-lo. A proposta está mais avançada que os usos e costumes do país.

Se é correto por que temos vergonha? 

Em excelente artigo um jornalista do Nouvel Obs levanta a questão: por que temos vergonha de pedir a doggy bag? Todos nós sabemos que pedir para embrulhar o que sobrou da refeição é correto. Não somente porque pagamos. Trata-se de um dos atos necessários para diminuirmos o vergonhoso desperdício de comida dentro do qual nos encontramos. Reduzir o desperdício alimentar é um dos três meios eficazes para reduzirmos a desordem climática. Se é correto por que temos vergonha? 

Tem que comer tudo

O artigo se apoia sobre o filósofo Leninas para propor variáveis explicativas. Segundo ele, pedir o resto é se colocar em posição inferior. Os ingleses e americanos contornam a vergonha pedindo os restos para o cachorro. Inferior porque não podemos nos alimentar com restos como os animais. Inferior porque atrelado ao dinheiro, porque o lado prático importa sobre o lirismo e a fantasia. Pedir uma doggy bag é romper o lado festivo do jantar. É ter vergonha de revelar que não vivemos somente no instante de prazer. Para construir a sociedade futura seremos obrigados a criar outra cultura que deverá passar pela frugalidade. Nesta nova cultura não desperdiçar deverá ser cool – e não brega – e a doggy bag deverá ser fashion.

Antes de terminar o artigo gostaria de relatar um fato. Estava, em 2017, sozinha com os netos na Suíça. Saímos para jantar em um restaurante que eles frequentam e conhecido por suas exageradas porções. Na hora do pedido tentei, sem sucesso, moderar os ardores dos adolescentes. Resultado, no final do jantar o resto equivalia a uma refeição no dia seguinte. O garçom imediatamente disse aos netos que iria colocar tudo, até a sobremesa, em caixinhas. Ao perceber uma ligeira contração da minha parte diante da sugestão da doggy bag, me olhou firme e disse: “Madame, a rainha da Suécia frequenta nosso restaurante há anos. Todas as vezes preparo para ela as caixinhas”. Que assim seja. No dia seguinte o argumento real foi de pouca importância diante da festa que fizemos com restos do frango assado frio.

Enfim, a rainha de Suécia representa o amanhã.

Leia também: Contra o desperdício nos restaurantes, a “quentinha”


doggy bagAcesse o site Minha Viagem Paris para descobrir e reservar passeios incríveis em Paris e no interior da França.