O Conexão Paris é essencialmente um site de informações turísticas. Mas nossa área de interesse é muito mais ampla do que o terreno turístico. Consideramos que para viajar bem devemos conhecer a cultura do país visitado e nos nossos dois artigos diários, desde 2007, distilamos aspectos diversos da cultura francesa. Os atentados terroristas possuem infelizmente amplo poder de divulgação e interpelam os turistas em vários áreas. Nestes últimos dias publicamos dois artigos, o primeiro chamado Terrorismo em Paris: como fica o turista e o segundo, Atentados terroistas em Paris: atualizações.

A imprensa brasileira segue de perto a cronologia dos fatos e esta não é a nossa, digamos, função. Mas publicamos, hoje, um resumo em tradução livre de um artigo do jornal Liberation. Ele apresenta uma análise dos eventos de janeiro e novembro 2015 e sintetiza uma vertente da cultura francesa.

Paris, praça Republique. did.van no Flickr

Paris, praça Republique. did.van no Flickr

“A população visada pelos terroristas foi a dos jovens urbanos cool que enchem no final do dia as varandas dos cafés e as salas de concerto de Paris.

Os atacantes conheciam muito bem os hábitos sociais e o simbolismo dos lugares para não atacarem endereços turísticos como Champs Elysées e Louvre ou redutos comunitários como o Marais gay ou 13ème, bairro chinês de Paris. Eles atacaram uma área ao mesmo tempo burguesa, progressista e cosmopolita.

Se olharmos com atenção os bairros atacados – 10ème e 11ème distritos –  sabemos, por os ter percorrido em todas as direções, que estas ruas testemunham uma heterogeneidade social e étnica que não existe em outros distritos.

Lojas estilosas, bares paquistaneses, cafés árabes, bibocas chinesas e vietnamitas, livrarias muçulmanas e sinagogas coexistem dentro de um espaço urbano agitado.

E o Bataclan (a casa de espetáculo onde morreram mais de 80 pessoas), estava lotada de adolescentes e jovens adultos para aplaudirem um grupo de rock conhecido.

O atentado abortado do Stade de France visava a destruição do epicentro de uma ampla comunhão no interior do hedonismo esportista representado pela equipe francesa, ela mesma formada por jovens oriundos das diversas correntes da imigração.

Existe uma sequência histórica coerente entre os atentados de janeiro 2015 e os de novembro 2015.

Duas gerações distintas serviram de alvo. Nos primeiros atentados, os terroristas tentaram silenciar a velha geração herdeira do espírito da esquerda libertária. Neles morreram jornalistas, humoristas, artistas de 68, 76 e 80 anos. Os ataques de 13 de novembro visaram o público jovem.

As duas datas foram idênticas somente na cenografia com a irrupção violenta dos atacantes, no escritório do jornal Charlie Hebdo em janeiro e na sala de concerto em novembro. Os jihadistes surgem a cada vez como para surpreender e punir un coletivo que se diverte.

Nos bairros atacados agora em novembro os jovens, cigarro em uma mão e copo de vinho na outra, se socializam com aqueles que frequentam as mesquitas do bairro. E é exatamente isto que os terroristas querem destruir, empurrando a sociedade francesa em direção ao fechamento identitário. Eles querem destruir a relação entre os franceses de origens diversas, fortalecendo as comunidades fechadas entre si.

Os membros do Daech esperam e conspiram para que a sociedade francesa adote uma loucura simétrica à deles. Para que ela adote posições extremas.

A sociedade francesa precisará de muita coragem para seguir em frente, sob o impacto de balas, sua via humanista.”

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