Enquanto dirijo, ouço com frequência a France Musique, a excelente emissora pública de rádio dedicada à música clássica e ao jazz. E foi assim que fiquei conhecendo o cravista brasileiro Bruno Procópio, num programa inteiramente dedicado a ele.

O cravista brasileiro Bruno Procópio

O cravista brasileiro Bruno Procópio

Ele é nosso conterrâneo – mineiro, de Juiz de Fora. Chegou em Paris em 1996 para estudar no prestigioso Conservatoire National Superieur de musique et danse de Paris. Hoje, Bruno é considerado um dos grandes talentos da sua geração.

Bruno se dedica especialmente ao estudo da música colonial brasileira e criou o conjunto Les Solistes du Palais Royal, cujo objetivo é reunir os mais importantes compositores brasileiros do período colonial.

Criou ainda o selo Paraty, por onde produz e divulga novos talentos da música clássica contemporânea, além dos seus trabalhos em torno da música colonial brasileira.

Ao ouvir o programa da France Musique – e o desfile de prêmios e elogios da crítica especializada que recebeu – me senti orgulhosa do nosso compatriota. Fui atrás dele, e abaixo publico uma breve entrevista com algumas de suas dicas de Paris:

Onde você mora em Paris? 
Morei 15 anos em frente do Parque La Villette no bairro 19, quase em frente do Conservatório de Paris onde fiz todos meus estudos musicais. Agora, por uma questão de necessidade de ter mais espaço, comprei uma casa no subúrbio e estou contentíssimo – não sabia que a grande região parisiense tinha seu charme. Moro ao lado do Parque da Poudrerie em Livry, o Canal de l’Ourq.

Qual é a importância de Paris na sua vida profissional?
Primeiramente toda a vida estudantil e depois a descoberta do mundo profissional! Paris para mim é o ponto de partida para o resto do mundo, estando em Paris posso viajar para o mundo todo com muita facilidade – para um profissional que vive de concertos é indispensável.

Paris é uma das melhores cidades para a cultura no mundo, estando aqui, posso escutar os melhores maestros, orquestra e grupos de todo o mundo. Paris continua me ensinado dia a dia.

E qual é a importância da sua raiz brasileira na sua vida profissional?
Eu desempenho um papel importante na vida cultural do meu país. Sou maestro convidado da Orquestra Sinfônica Brasileira e todos os anos eu rejo um ópera inédita no Brasil.

Em 2012, regi o Ouro Não Compra Amor do ilustre compositor luso-brasileiro Marcos Portugal (1762-1830) no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Este ano,  regi a ópera Renaud (1783) de Antonio Sacchini e acabo de reger o concerto comemorativo dos 450 anos do Rio na Cidade das Artes, a novíssima sala de concertos na Barra.

Estou sempre criando pontes entre a França e o Brasil, e acabo de ser nomeado Embaixador do Centro de Música Barroca de Versailles na América do Sul. Iremos promover inúmeros projetos no Brasil a partir de 2016.

Vários artistas, como Villa-Lobos por exemplo, vieram para Paris e encontraram aqui sua brasilidade, fator determinante para suas obras. O mesmo aconteceu com você?
Eu tenho minha brasilidade intacta desde que nasci! Paris me fez um brasileiro melhor, mais justo, menos preconceituoso, mais universal… Viver no estrangeiro é a melhor maneira de apurar suas origens.

Quais são seus cinco locais preferidos em Paris?

  1. O café do Grand Hotel, na Opéra: é só entrar pelo Café de la Paix e, no fundo à esquerda, caímos neste esplendido espaço, todo de vidro e ferro da época do Eiffel.
  2. Comer o “Choucroute de la Mer” do mais antigo bar-brasserie de Paris, o Le Bofinger (5-7  Rue de la Bastille | 75004). Dica: reserve uma mesa sob a famosa cúpula do local.
  3. O Café du Commerce é lindo e muito típico, um cenário de livro de Balzac (51 Rue du Commerce | 75015)
  4. O novo café na Opéra de Paris, a entrada olhando o prédio de frente é na lateral direita. Um charme.
  5. Um restaurante chinês extraordinário (como quase não existe), chamado Autour Du YangTse, pertinho da Opéra (12 Rue Helder | 75009)

Quais são as melhores salas para se escutar música clássica em Paris?
São tantas que seria melhor citar as mais emblemáticas como o Théâtre des Champs-Élysées, as duas óperas (Garnier e Bastille), a Opéra Comique, sem esquecer a esplêndida programação da Opéra Royal de Versailles.

Por que você escolheu Paraty como nome do seu selo?
Foi lá que tudo começou, onde conheci o professor do Conservatório de Paris,  que me convidou. Fui diretor do mesmo festival 10 anos depois. O nome é forte e faz parte da minha história…

Onde encontrar em Paris e no brasil os CDs do seu selo Paraty?
O selo é distribuído pela Harmonia Mundi, que é uma das mais importantes distribuidoras.  O disco é distribuído na Europa, Estados Unidos, Canadá e Japão. Pelo Itunes no mundo todo. E no Brasil… o Brasil não tem distribuidora!!! Somente alguns discos na Fnac de São Paulo. Brasil, Brasil… precisamos de um pouco mais cultura neste imenso e rico país.