Por Roberto Halfim
Um jeito diferente de caminhar por Paris…escutando as canções francesas.
Gosto de música e a música francesa sempre me remete a Paris. É um som associado a imagens, a momentos, e todos os cenários estão relacionados com a capital francesa.
A primeira música que me vem à lembrança é de Anny Cordy e se chamava Le Soleil Brille. Meu pai amava esta canção, ela é vibrante e fácil de decorar. A ouvi dentro de um velho táxi Peugeot 303, quando desembarquei na cidade pela primeira vez. Foi no trajeto Orly/Paris, dia com sol e enquanto escutava a canção vi a torre. Le Soleil Brille e Anny Cordy ficaram definitivamente associados, em minha memória, à torre Eiffel.

Algum tempo depois, fui assistir um show de Aznavour no Olympia. E mesmo com apenas 13 anos, ficou marcado em minha memória uma frase que só vim a entender muitos anos depois: ” entre 40 e 50 anos, quando um cantor fala em cena, é apenas para recuperar o fôlego. Assim é possível entender a diferença entre um cantor com uma certa idade e um cantor com a idade certa”.
Aznavour cantou duas canções com temas semelhantes, Sa Jeunesse e Hier Encore, e entre as duas canções ouve um hiato de muitos anos. Ele mostrou a diferença de uma canção escrita por um autor de uma certa idade e outra escrita por um autor com a idade certa.
Anos mais tarde, eu entendi a frase de Aznavour e a relacionei com Paris. Para conhecer Paris, bem, é necessário um intervalo de maturidades. A Paris dos meus 13 anos jamais será a cidade dos meus vinte ou cinquenta anos. Haverá uma Paris para uma certa idade e a Paris para a idade certa, uma cidade que amadureceu e que acompanhou meu amadurecimento.

As caminhadas parisienses tem a ver com fundo musical. E fundo musical tem a ver com maturidade. Não basta ouvir a Natalie de Gilbert Becaud. Tem que conhecê-la. Imaginá-la. É preciso chorar de verdade procurando a Aline de Christophe e até hoje me pergunto se ele a encontrou. Temos que sentir que o tempo passou e que, Hier Encore, nem faz tanto tempo assim e lamentar com muito vinho na cabeça. Na verdade, nem acho todas essas músicas boas. Mas, memoráveis.
Ouvir as canções franceses tem a ver também com transgressão. Incorporamos o que elas significam e saimos pela cidade buscando novas referências.
Minha mãe sempre achou Yves Montand lindo. Quando vejo minha amiga Fernanda Hinke na sua bicicleta, imagino minha mãe aos vinte anos , morando em Paris e encantada com Montand. Minha avó cantava Parle Moi d’Amour para me ninar. Penso nela quanto observo a senhora sentada ao meu lado no metrô e tento imaginar sua história.

Aznavour me ensinou a amar Paris em agosto, Paris au Mois d’Août, com a cidade vazia dos seus habitantes e vários comércios fechados. Trenet me faz questionar sobre o que restou dos meus amores, Que Reste-il de Nos Amours. Penso em Brel sempre que abandono Paris: Ne Me Quitte Pas! Mas, Piaf mostra que não devo me arrepender de nada, Je ne Regrette Rien.
Gostaria de deixar uma dica. Antes de conhecer Paris, ouça música francesa. Sua visita será muito melhor. Ou, no mínimo, mais memorável.