No início da minha vida parisiense, quando queria comprar uma coisa só, acabava voltando para casa com duas contra a minha vontade. Me explico dando um exemplo. Entrava na padaria e pedia com meu forte sotaque e meu francês do início, uma bisnaga por favor. Para fortalecer o meu pedido acrescentava um gesto com as mãos mostrando um dedo.

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Invariavelmente a atendente enrolava duas bisnagas, eu pagava sem falar nada porque no início explicar que não, que é uma só seria acima da minha capacidade de expressão em francês.

Aí eu conheci aquele com quem me casei e um dia contei que todas as vezes que pedia um voltava com dois. Meu francês estava progredindo, meu sotaque regredindo e eu continuava voltando para casa com duas bisnagas. Depois de muitas risadas e reflexões matamos a charada.

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Na França, quando quiserem um façam o gesto acima. Se fizerem o gesto lógico para os brasileiros, o gesto da primeira foto eles vão entender dois,

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porque o nosso dois para eles já é três.

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Entenderam? eles acham que não tem lógica nenhuma começar a contagem com o dedo que as crianças chamam de fura-bolo, o índex. Para eles o primeiro, o que respresenta a unidade um é o polegar. Voilá porque durante quase um ano eu comprei duas bisnagas.